segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Massacre de O Massacre da Serra Elétrica



Pode-se dizer que o maior vilão da estória foram os produtores que,com sequências porcas e desnecessárias, fizeram um massacre muito maior que o próprio Leatherface.


Por João Pedro Rodrigues
Poucos filmes de terror conseguiram ser tão ou mais influentes quanto O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre – 1974) foi nos anos 70 – e ainda é –, figurando como um dos maiores clássicos do cinema de horror de todos os tempos.

A trama é simples: “Um grupo de 5 jovens viaja pelo norte do Texas, com a intenção de passar o dia em uma antiga casa de verão. No caminho os jovens dão carona a um louco psicopata, o que os levam ao encontro de uma bizarra família de canibais e uma figura monstruosa, que faz uso de uma motosserra (não uma serra elétrica, como descrito nos títulos brasileiros) para matar suas vítimas”.

Curiosamente o personagem Leatherface é levemente inspirado na história real de Ed Gein, um bizarro assassino que gostava de guardar restos de suas vítimas em sua casa, em especial mulheres. Sua história também serviu de inspiração para Robert Bloch, ao escrever seu famoso livro Psicose, e Thomas Harris, em seu romance policial O Silêncio dos Inocentes, ambos adaptados para o cinema.

Rodado em 16mm, com um orçamento de míseros US$ 125 mil e um elenco de desconhecidos dirigidos por Tobe Hooper, não se esperava que o filme obtivesse o sucesso que se seguiu; o longa de baixo orçamento foi um sucesso para o público e extremamente controverso entre os críticos e a parcela mais conservadora dos espectadores, que taxaram o filme de “doentio”, “perverso”, “brutal” e “inaceitável”. As controvérsias só aumentaram a popularidade da obra, que conseguiu sólidos US$ 30 milhões nos cinemas americanos (mas foi banida em países como Inglaterra, Finlândia e o próprio Brasil, só sendo liberada em 1987).

Claro que sucesso na indústria cinematográfica significa sequência. E ninguém foi mais infeliz nesse quesito que nosso querido Cara de Couro, que agonizou em filmes que variaram de mediano a péssimo. Sua tortura começa em 1986.


O Clube dos Cinco, O Massacre da Serra Elétrica 2 (The Texas Chainsaw Massacre 2 – 1986)
Alguma semelhança?
A ideia de uma continuação não era nova. Desde os anos 70 se discutia um possível Massacre 2, que só foi produzido 12 anos depois. O Massacre da Serra Elétrica 2 foi parte de um acordo de Tobe Hooper, de três filmes, com uma pequena produtora de cinema, a Cannon Films, que produzia na maior parte lixos apelativos de baixo orçamento, mas bastante comerciais.

Hooper, que já havia dirigido filmes bem decentes desde 1974, como o clássico Poltergeist (apesar dos atritos com Steven Spielberg) e também alguns filmes bem fracos (Invasores de Marte, Força Sinistra), conseguiu um orçamento de US$ 5 milhões e um prazo de 8 semanas de filmagem. O roteiro, antes escrito por Tobe Hooper e Kim Henkel, ficou nas mãos do desconhecido L. M. Kit Carson. Do elenco, apenas Jim Siedow reprisa seu papel como O Cozinheiro.

Na estória temos a DJ Stretch (Caroline Williams), que após ouvir o assassinato de dois jovens, ao vivo, em seu programa de rádio, procura a ajuda do Tenente Lefty Enright (Dennis Hopper), tio de Franklin e Sally do primeiro filme, e que procura vingança pelas suas mortes. Ambos dão de cara com Leatherface e a família de canibais, agora escondidos em um refúgio subterrâneo.

Talvez por pressão da Cannon nas decisões criativas ou mesmo porque Tobe Hooper tenha decidido que apostar no humor negro seria uma boa ideia, mas O Massacre 2 não lembra em nada o seu antecessor, que contava com um clima pesadíssimo e a violência, na maioria da vezes, implícita. Nessa parte 2 o gore está por toda a parte, num exagero quase cômico, acentuado pelo rei da maquiagem, Tom Savini. O filme segue um rumo de autoparódia que destrói todas as suas chances de ser levado a sério. Tudo é exagerado, tudo é over-the-top; desde as atuações (Dennis Hopper duelando com Leatherface usando motosserras ao invés de espadas foi constrangedor) até os cenários (a casa escura do 1° filme é substituída por túneis com luzes coloridas de parque-de-diversões por todos os lados). Chega a ser triste pensar que o mesmo cara que conseguiu criar um dos clássicos do cinema de horror com recursos tão limitados se vende ao cinema Exploitation da pior espécie e se rende aos exageros desse gênero.


O Massacre da MPAA, Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3 (Leatherface: Texas Chainsaw Massacre III – 1990)


Após os problemas com a produtora Cannon na produção de O Massacre 2, os direitos da franquia da motosserra foram vendidos à New Line Cinema, que na época detinha os direitos sobre a lucrativa série A Hora do Pesadelo. Tobe Hooper já não tinha envolvimento no projeto, ocupado com as filmagens de Conspiração Atômica. Kim Henkel, co-roteirista e produtor do original, ainda estava brevemente envolvido.

O roteiro ficou a cargo de David Schow e na direção, Jeff Burr. A proposta original era um filme de terror mais sério, longe do humor do 2º filme e mais próximo da atmosfera séria e brutal do original. 

Nessa parte 3 acompanhamos um casal cruzando o Texas em direção à Califórnia. Ryan (William Butler) e Michelle (Kate Hodge) que após uma confusão em posto de gasolina acabam dando de cara com Leatherface, agora com uma família totalmente nova, que também inclui um jovem Viggo Mortensen (O Senhor dos Anéis). O encontro resulta em um acidente de carro envolvendo Benny (Ken Foree, de Despertar dos Mortos), um Prepper devidamente preparado para emergências. Agora, o trio deve enfrentar o grupo de canibais para não virar o jantar.

O resultado foi um filme, de fato, mais sério e longe dos exageros da Parte 2, mas que ainda peca na construção fraca dos personagens e nas investidas num clima mais pop, semelhante ao adotado pela franquia A Hora do Pesadelo. Mas no geral um filme decente e extremamente violento; marretadas na cabeça, mãos pregadas e dedos arrancados banham o filme de sangue. E talvez tenha sido essa violência que matou o filme.

A MPAA não gostou nada do excesso de sangue presente e deu ao filme uma classificação X (apenas adultos), o que seria péssimo para o desempenho do filme nas bilheterias. Então a New Line não teve escolha a não ser ordenar cortes severos no gore do longa, para conseguir uma classificação NC-17 ( a partir de 17 anos), o que fez com que todas as cenas explícitas fossem reduzidas ou eliminadas. O resultado final foi um filme que não agradou à crítica, nem ao diretor e muito menos ao público, visto o péssimo desempenho nos cinemas. O Filme ficou incoerente, mal-editado e aleijado, além de uma alteração no final, deixando um certo personagem vivo para um possível retorno na sequência; retorno esse que não aconteceu.


Leatherface, a Rainha do Deserto, O Massacre da Serra Elétrica – O Retorno (The Return of the Texas Chainsaw Massacre – 1994)

Após o fiasco que foi a Parte 3, a New Line nada tinha a fazer com a franquia e os direitos voltaram para as mãos de Kim Henkel e Chuck Grigson, que resolveram fazer a Parte 4 como um filme independente e depois vendê-lo a um estúdio para a distribuição. Kim Henkel ficou a cargo do roteiro e da direção.

Com um orçamento de US$ 600 mil, as filmagens começaram em 1993. Segundo Henkel, sua continuação ignoraria as partes anteriores e seria uma continuação direta do original de Hooper.

O enredo nos apresenta Jenny (uma não tão famosa René Zellweger), uma adolescente recém formada que viaja com os amigos – Heather, Barry – e seu namorado Sean, após o baile de formatura. Claro que rodar as estradas do interior do Texas, à noite, nunca é uma boa ideia. Eles logo tem um acidente: o pneu fura e o quarteto se separa em busca de ajuda. Heather, Barry e Jenny acabam encontrando a excêntrica Darla, que convenientemente tem um serviço de guincho e contata seu irmão, Vilmer (Matthew McConaughey, terrível), um louco com uma perna mecânica a controle remoto, para que recolha os carros. Não é uma surpresa que os dois irmãos pertençam à família de canibais e logo os jovens serão caçados, perseguidos, encontrarão uma casa no meio do nada e o resto é basicamente uma refilmagem do original.

A experiência com O Massacre da Serra Elétrica 2 deixou claro que ter alguém do original envolvido na sequência não dá garantia de um bom filme. E o caso se repete aqui: O Massacre 4 é simplesmente atroz!

É até um pouco difícil começar a dizer o que deu errado com essa parte, porque tudo é simplesmente terrível! Começando com as atuações: René Zellweger não convence como a Final Girl e nunca passa a sensação de desespero que Marilyn Burns soube transmitir tão bem. Matthew McConaughey nos brinda com uma das atuações mais porcas já vistas em um filme de terror, se limitando a gritar e arregalar os olhos toda vez que ele tenta passar qualquer tipo de emoção (se me dissessem que esse mesmo cara iria ganhar um Oscar 20 anos depois eu teria rido muito). O resto do elenco simplesmente é insignificante e não adiciona nada à estória.

Claro que não podemos deixar de citar Leatherface, totalmente destruído nessa bomba criada por Henkel; o maníaco da motosserra aqui se limita a dar faniquitos e gritar esganiçadamente em toda cena que aparece. Lá pelas tantas ele decide se transformar numa Drag Queen, no melhor estilo Mamma Bruschetta, com direito a um vestido preto e batom. O pior é que a Drag Leatherface parece se subordinar à Jenny, que até então deveria ser a vítima. Em um momento bizarro do filme Leatherface, como de praxe, começa a gritar, ao que Jenny irrompe um “cale-se” e ele/ela obedece passivamente, se sentando e não dando um pio.

As bizarrices não param por aí: em um certo momento em uma das famosas cenas de jantar com a família, o Vovô simplesmente se levanta da sua cadeira, do nada, e sai de cena (nem ele parece ter paciência com essa bomba). Em outra cena, um homem de terno sai de sua limusine, entra na casa dos psicopatas e fala para Vilmer “você sabe porque está aqui. Eu quero que estas pessoas passem pelo verdadeiro horror” (?). São momentos tão aleatórios que parece que o filme foi feito ruim de propósito; edição desleixada, péssimas atuações e um roteiro (se realmente houve um) simplesmente sem nexo.

O filme foi comprado pela Columbia Tristar, que deve ter concordado que o filme não valia a pena, pois a obra ficou engavetada por três anos, só sendo lançada em 1997 com 15 minutos de cenas cortadas e com o título O Massacre da Serra Elétrica: A Nova Geração (há boatos que o próprio McConaughey chegou a pagar uma graninha ao estúdio para que essa bomba nunca visse a luz do dia). Porém, a Columbia não fez esforço nenhum para que o filme tivesse um bom retorno. A Nova Geração estreou em 23 cinemas, em todo o EUA, e conseguiu arrecadar míseros US$ 300 mil nos 15 dias que aguentou em cartaz. O Massacre 4 foi a pá de cal na franquia (pelo menos até o século XXI).


Remake e Prequel

O fiasco chamado O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno basicamente liquidou qualquer chance de dar continuidade á franquia original. O jeito era recomeçar a franquia do zero, pelo menos foi o que pensou a New Line que, em parceria com a empresa de Michael Bay, a Platinum Dunes, encomendou um remake para 2003 e uma prequel do remake, lançada posteriormente, em 2006.

Marcus Nispel, conhecido por sua carreira em vídeos musicais, foi escolhido para o cargo de diretor do novo O Massacre da Serra Elétrica. O enredo é basicamente o mesmo: grupo de jovens cruzando o Texas em uma van (dessa vez a caminho de um show do Lynyrd Skynyrd e com um carregamento de maconha no porta-malas) e, após darem carona a uma misteriosa mulher, o terror começa.

A construção do suspense começa até bem, mas se perde na meia hora final do filme, com correrias pra lá e pra cá, sem propósito. O elenco também destoa muito dos hippies do original, aqui temos rostos bonitos que parecem sido tirados de algum Reality da MTV, como a bela Jessica Biel – a protagonista do remake. O filme também comete o erro da maioria dos remakes de tentar explicar demais, procurando o motivo da máscara usada por Leatherface – aqui ele é um maníaco com uma doença de pele pele e sem nariz, que usa as máscaras para esconder sua face grotesca. O excesso de explicações tira um pouco do mistério do personagem.

O Massacre da Serra Elétrica: O Início também sofre dos mesmos problemas do remake – muitas explicações sobre os motivos de Leatherface. Além do mais, o filme tenta mostrar o que levou os membros da família a virarem canibais psicopatas. Mas essas explicações acabam não adicionando quase nada ao filme, que prefere focar em um grupo de jovens (estrelando a brasileira Jordana Brewster) sendo caçados e mortos por Leatherface, que não poupa na violência. O filme acaba tendo um ritmo melhor que o seu antecessor e se sobressai por mostrar a famosa cena do jantar, uma marca da franquia.


O Massacre Final, O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua (Texas Chainsaw 3D - 2013)

Obviamente nenhuma franquia de terror fica morta em Hollywood. Leatherface voltaria mais cedo ou mais tarde.

A intenção de A Lenda Continua era ser uma continuação direta do original (já ouvi isso antes!), ignorando as partes 2, 3, 4, o Remake e O Início; pelo menos era o que prometia o roteiro de Adam Marcus, Debra Sullivan, Kirsten Elms e a direção de John Luessenhop. De fato parecia que algo bom poderia vir dessa sequência; até nomes dos originais como Marilyn Burns e Bill Moseley voltaram em papeis menores.

O filme realmente começa como uma legítima continuação do Massacre de 1974: com a escapada de Sally (usando cenas do original) e o destino da família após isso, mortos por cidadãos revoltados. A cena de fato é ótima e temos que dar crédito à continuidade por nos levar de volta a 1974 usando um cenário bem similar. Infelizmente esse é o único ponto positivo para esse filme, pois o resto é simplesmente tudo o que já vimos em centenas de filmes de terror com adolescentes: personagens antipáticos fazendo idiotices até serem mortos.

O filme corta para 2013, onde somos apresentados aos personagens: Heather (Alexandra Daddario), seu namorado Ryan (Trey Songz) e a vadia Nikki (Tania Raymonde), jovens que decidem cruzar o Texas após Heather descobrir que herdou uma casa (dos Sawyer) em uma pequena cidade. Heather é na verdade sobrinha de Leatherface, um bebê que foi resgatado quando a multidão furiosa da cidade matou a maioria da família Sawyer. Aí está o primeiro problema do filme: Heather era apenas um bebê em 1973, mas quando o filme corta para os tempos modernos, ela ainda está nos seus 20 e poucos anos. Um furo gritante que os roteiristas não acharam que valia a pena dar uma segunda olhada.

Os 4 jovens chegam à casa, são roubados, aprontam, fazem bastante estupidez e eis que Leatherface (que veio de brinde com a casa) aparece e faz sua motosserra rugir; como nós não ligamos para os personagens, não é problema nenhum vê-los morrer. E as mortes tem bastante gore pra ninguém botar defeito, intensificadas pelo efeito 3D que é interessante em algumas partes mas, na maioria das vezes, desnecessário.

Há algumas cenas de perseguição interessantes, alguns momentos de fazer o espectador balançar a cabeça (como uma certa frase de efeito dita por certo personagem que teve a intenção de ser cool, mas só foi idiota), mas o filme é simplesmente ruim. Heather, como a Final Girl, não tem carisma nenhum e suas decisões raramente são inteligentes, o que torna difícil para nós simpatizarmos com ela. Não dá pra esquecer, também, da tentativa absurda do filme de humanizar as ações de Leatherface e transformá-lo no anti-herói da estória, transformando a população texana nos verdadeiros vilões. Patético!

Simplesmente não há nada para ver nesse A Lenda Continua, outro filme de terror clichê e sem imaginação, que Hollywood já tem aos montes.

O longa fez uma grana decente nos cinemas e já há previsão pra outro filme da franquia; até agora intitulado Leatherface, que novamente entrará nas origens do personagem. O roteiro ficou a cargo de Seth M. Sherwood e a previsão é que seja lançado no segundo semestre de 2015. Depois de tantas continuações de qualidade duvidosa fica difícil esperar algo de bom desse novo filme; mas, quem sabe?




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