quinta-feira, 11 de abril de 2013

Holy Motors



Crítica feita por Julio Sonsol

Holy Motors - Poster

O cinema americano nos educou a entender filmes com começo, meio, narrados preferencialmente de forma linear. Alguns diretores de Hollywood, em busca de alguma criatividade, mais tentando sair da mesmice do que acrescentar poções artísticas, adotaram outras montagens em suas produções, como Tarantino em "Cães de Aluguel", deixando o espectador em busca tanto do início quanto do fim da trama, tendo de refazer os passos percorridos pelos personagens mentalmente.


Mas no fundo, todos, ou a grande maioria, estão apegados a construção aristotélica do teatro, com início meio e fim. Um determinado protagonista traz para si o fio condutor da história e percorre vários pontos da trama carregando uma questão que vai ser respondida com um sim ou com um não. “O mocinho vai ficar com a mocinha?”, “o autor do crime vai ser descoberto?”, “eles vão escapar do monstro?”, “a batalha vai ser vencida?”. São três atos a serem percorridos até obtermos a resposta da pergunta dramática.

Holy Motors parece romper com isso. Ou, no mínimo, não dá nenhuma importância a esses modelos de construção cinematográfica. Depois de mais de uma década sem produzir, o diretor francês Leos Carax nos presenteia com o que se pode chamar de obra prima. Capaz de encantar qualquer cinéfilo desavisado. Mesmo que não entenda nada da trama que vai assistir, ou que chegue a conclusões nunca dantes pensadas sobre a obra. Aliás, entender o que o autor quis passar é o que menos importa. O que vale mesmo é a viagem entre a primeira e a última cena, com direito a várias estações.

Quem já viu, e acho que foram bem poucos, a julgar pelos números de bilheteria divulgados, entendeu o que eu disse até aqui. Quem não assistiu ainda, vou procurar dar mais alguns elementos que possam trazer alguma explicação sobre o que trata Holy motors.

O personagem Oscar (uma ironia como o prêmio máximo do cinema hollywoodiano) é um ator que vai representar vários personagens durante o dia. Ele é conduzido de um ponto a outro de Paris em uma limousine dirigida por sua motorista Céline, para as diversas interpretações que irá realizar. Entre uma cena e outra, Oscar vai se caracterizando para o próximo personagem.

Só que as cenas que representa não é vista por uma plateia, nem é filmada. É como se o ato de representar se valesse por si próprio. Uma quebra com a questão mercantil da arte. Quem é o mecenas, ou qual a finalidade capitalista daquelas cenas são perguntas sem respostas claras.

Mas esse fator comercial não interessa. Cada esquete, chamemos assim, nos prende como chiclete. A cada começo de uma cena, recomeçamos juntos. Nos prendemos e até é possível que consideremos a história dentro história como mais importante do que a vida do ator, que também nos é retratada. Não importa. Tudo é passível de uma degustação. Cada nova historieta renova o interesse, e a subtrama passa a ser a trama principal, dependendo do nosso olhar, da nossa sensibilidade.

Várias metáforas podem ser percebidas ao longo do filme. Mas isso, acho eu, deve ficar a critério da racionalidade, ou de possibilidade de cada um. A principal delas, a meu entender, é uma severa crítica aos gêneros de películas americanas, que engessaram, de certa forma a criatividade, e que e capaz de considerar o melhor filme do ano uma tentativa de resgate do cinema mudo.

O filme, conforme foi divulgado, foi aplaudido de pé por 10 minutos durante o festival de Cannes. Mesmo assim, os distribuidores não se comoveram com as possibilidades comerciais de Holy Motors. Pelo menos em minha cidade, Fortaleza, só tive acesso através de um determinado site sueco, (se é que vocês me entendem).

Ah! Ia me esquecendo: só ao final do filme é que sabemos porque ele é Holy Motors. Recomendo fortemente.

Bem, não quis dar mais detalhes sobre o que o filme traz para não tirar o interesse do leitor de apreciar a obra com os seus próprios olhos. Só isso.

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