domingo, 14 de setembro de 2014

O Beijo Amargo



Por João Trettel


Samuel Fuller sempre foi um contestador de sua época, visto pelo seu filme anterior “Shock Corridor”, que mostra e denuncia a prática abusiva de pacientes em “hospícios”, como o uso de choques, banheiras com gelo e outros tratamentos que eram considerados normais, alguns anos atrás. Considerado um dos melhores filmes dele, Fuller explora a história de um assassinato dentro de uma clínica e um jornalista que faz de tudo pela notícia. Assim ele é internado e se finge de desequilibrado para se infiltrar.

Em “O Beijo Amargo”, o diretor volta a tratar de assuntos polêmicos para a época dele, no caso 1964. Quando a América vivia outros tempos e o mundo também, e tudo era escondido. Como a caça aos comunistas e toda a cultura do “American way of life”. Coisa que ele vai explorar muito nesse filme. O começo de “Beijo Amargo” já revela a personalidade da protagonista,Kelly (Constance Towers)na quala personagem aparece careca batendo em um homem. O interessante dessa primeira cena é o enquadramento, ou melhor, um closed enorme na cara da atriz, mostrando seu sentimento, e depois quando a câmera abre, novamente, temos um plano geral mostrando que ela está num apartamento. O homem que ela bate diz estar bêbado, ele cai no chão e Kelly pega sua carteira e diz que só quer o que é seu! No caso 75 dólares. Nesse diálogo percebemos que ela é uma prostituta.

Quando os créditos iniciais aparecem, Kelly começa a se maquiar na frente do espelho e temos um corte na cena. Achei interessante como o diretor apresenta algumas ideias da personagem em poucos minutos, vemos que ela é enigmática, raivosa e ao mesmo tempo vaidosa, todas as qualidades de uma mulher.

Depois de se apresentar os créditos temos um grande plano geral mostrando a cidade de Grantville, com crianças brincando e pessoas no parque. Uma perfeição para todos os detalhes, lembrando que se trata do auge do “American Dream”. Kelly sai de sua situação atual, que é a prostituição, e começa uma vida nova na cidade. Logo quando ela desce do ônibus encontra o policial Griff (Anthony Eisley), os dois sentam na praça e conversam sobre champanhes, o que ela vende para atrair seus clientes. 

Kelly e Griff transam, e ele indica um lugar para ela se prostituir com certa “segurança”. O policial sai para trabalhar e Kelly tem uma “epifania”, e assim ela muda completamente de vida. Começa a trabalhar num hospital na ala de crianças deficientes e até mutiladas, uma espécie de penitência, assim segue fazendo o seu serviço e é muito elogiada por sua competência. Abrindo certa curiosidade sobre quem é ela dentro daquela sociedade “perfeita”.

Kelly e uma amiga vão numa festa do milionário da cidade. Um solteirão que viaja pelo mundo e traz presentes para todos os amigos, e até os novos, que é o caso dela. Na festa ela encontra Griff, os dois não conversam, mas trocam olhares, revelando melhor do que qualquer diálogo o que eles estão pensando. O uso novamente do closed é muito bem realizado durante todo o filme. Não revelando a beleza dos seus atores, mas sim a culpa, inocência ou até raiva de cada situação. Grant (Michael Dante) se apaixona por Kelly e os dois começam um romance, até que ela conta a verdade sobre o seu passado e mesmo assim Grant aceita a verdade e a pede em casamento. O filme até ai se encaminha igual ao roteiro de “Uma linda mulher” e todos os contos de fadas, onde um milionário tira a pobre mulher do seu lugar e a traz para uma situação melhor. A Produção poderia cair num clichê comum, se não fosse dirigido por Samuel Fuller, e assim o filme tem suas reviravoltas perfeitamente dirigidas.

Um dos melhores momentos do filme, mas também de todo a construção de cena e seus detalhes, são quando Kelly prepara seu vestido de casamento e vai mostrar para Grant. Ela sai da sua casa e passeia pela vizinhança onde tem crianças brincando na rua, casas bonitas e harmoniosas e “cercas brancas” por todos os lugares. Tudo está perfeito, quando ela chega à casa de Grant. Ela não vê ninguém e uma música, que costumava cantar,para algumas crianças, quando estava no hospital, está tocando. Então ela para na sala e olha para a câmera e temos um closed novamente na sua cara, e sua expressão de felicidade mudando. Da felicidade, para tristeza e finalmente o desapontamento. E descobrimos a verdade daquela cena. Grant, o seu futuro marido estava abusando sexualmente de uma menina.A cena já é muito surpreendente e a atuação de Michael Dante, de joelhos dizendo que Kelly descobriu sua doença, e que os dois se combinavam já que eles eram duas aberrações, foi impactante. Uma cena genial, muito bem realizada, roteirizada e muito bem feita. 

Samuel Fuller é um diretor que hoje em dia não o vemos com muito destaque. Falamos mais de diretores como “Billy Wilder” ou“Elia Kazan”, que são contemporâneos. Mas até mesmo o Kazan, que trabalhou com muitos filmes baseados na obra de “Tennese Williams”, que é um autor polêmico e mexe nos esqueletos de uma sociedade que vive sobre camadas, ninguém consegue tratar de vários assuntos como Fuller, um diretor genial e acima de tudo um artista. O desprezo e angustia que “O beijo amargo” retrata, certamente chocou aquela sociedade da época e me chocou por apresentar um roteiro e uma direção fora do normal.Com certeza vale para todos conferirem a obra desse excelente e polêmico diretor.

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