segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Ninfomaníaca: Os dois filmes que são um.



Por Julio Sonsol


“As qualidades humanas podem ser resumidas em uma palavra: hipocrisia”. 
Joe

Há muito tempo que não tenho escrito sobre filmes. Também não tenho visto muitos. A correria da vida acadêmica, misturada com a profissão e outros setores que também precisam de minha atenção me distanciaram razoavelmente dessa fantástica diversão que são as narrativas através do cinema. Desde que o mundo é mundo, conta-se histórias. E as melhores se imortalizam. Vide as obras gregas que, até hoje, servem de assunto em diversas produções cinematográficas. 

Bem, mas não é sobre a história da humanidade que me disponho a escrever, mas sobre Ninfomaníaca, a última obra do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, que tem sido amaldiçoado no meio, por conta de algumas declarações politicamente incorretas, chegando a ser expulso do Festival de Cannes. Por conta disso, o diretor resolveu fazer voto de silêncio e nunca mais dar nenhuma declaração aos meios de comunicação, o que eu, particularmente, considero uma pena. 

Mas vamos ao Ninfomaníca (The Nymphomaniac). A película nos traz a história de Joe, contada aos moldes gregos. Tudo se passa em tempo real, onde a protagonista, com aproximadamente 45 anos, é encontrada, à noite, bastante machucada em um beco por Seligman, um sexagenário, e levada para a casa dele, onde será tratada de seus ferimentos e acolhida para o pernoite. Ao chegar lá, ela conta a história de toda a sua vida, que nos é mostrada em flashbacks. Essa forma de se desenvolver a história é comum no teatro grego, como Édipo Rei. E neste formato, Joe vai revelando a sua vida. Ou seja, todo o filme tem o tamanho de poucas horas, onde é desenvolvida a narrativa.

Difícil se despir de toda moralidade cristã, quando se trata de uma abordagem da própria vida sexual. Aparentemente, Joe não é exceção. Ela se sente suja e má por seus desejos sexuais excessivos ainda na infância. Na pré-adolescência, toma a iniciativa de perder a virgindade com um jovem que ela conhecia e morava próximo. Depois descobre outras amigas que também tem fortes pulsões sexuais e gostam de dar vazão aos instintos das formas mais variadas possíveis. Chega ao ponto de entregar-se ao sexo em um vagão de trem, só para apostar quem conseguirá mais transadas com os homens que ali estão, durante uma viagem. 

A madura Joe considera as suas atitudes dignas de condenação. Ela admite que se não tivesse tanta voracidade sexual sua vida seria mais moralmente aceita; e esta aceitação possivelmente lhe daria alguma paz, que ela parece não encontrar em momento nenhum de sua vida. Apesar do imenso prazer que o sexo lhe proporciona, a libido também lhe traz sérios problemas. Já na idade adulta e casada, ela é capaz de abandonar um filho só, em casa, apenas para satisfazer os seus instintos.

Mas o filme está para além do sexo, mesmo tendo em sua versão original, cenas explícitas, que foram subtraídas na versão comercial, por questões de mercado. Apesar dos cortes efetuados na película, a crueza, própria de Triers, está muito representada neste formato que nos foi dado pelas salas de projeções. Há, no decorrer de todo o filme, um debate sobre o que é moralmente aceito ou não, o que é saudável ou doentio. Joe sempre se declarando culpada e má e Seligman mostrando que a vida da sua interlocutora não precisa de reparo. A sociedade é que é hipócrita e não aceita que as mulheres exerçam livremente sua sexualidade, diz o homem, como se querendo despir-se de todo o machismo e dar suporte ao comportamento de Joe. 

Triers também açoita o politicamente correto, pela boca da protagonista, quando ela declara que “cada vez que uma palavra se torna proibida você remove uma pedra do alicerce democrático.

“A sociedade demonstra sua incompetência em face de um problema concreto, removendo palavras da língua. A sociedade é tão covarde quanto as pessoas nela, que são demasiado estúpidas para a democracia”. 

Recomendo fortemente esse filme, para quem consegue ter reflexões para além da moral cristã e não se melindre em vislumbrar na tela órgãos sexuais e cenas de sexo não explícitas, com exceção de um boquete. Como vi a produção no cinema, me submeti ao corte brutal que a película, que foi dividida em duas, sofre. São pouco mais de quatro horas de filme, que se submete a uma brutal interrupção, sem nenhum cuidado artístico, apenas para se tornar compatível com o tempo de exibição das salas comerciais. Acho aconselhável vê-lo todo, de uma só tacada. Como não quero dar mais spoillers, vou ficando por aqui, agradecendo à Nathália o convite de retornar ao Fat

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